6 de maio de 2010

Cidade de Deus

Cinco anos depois da sua publicação, um dos romances brasileiros mais importantes da década de 90 chega aos cinemas para contar como o crime organizado se instalou nas favelas do Rio.

Lançado em 1997, Cidade de Deus, de Paulo Lins, foi adaptado ao cinema por Fernando Meirelles. Mas Fernando define Cidade de Deus como um "filme de equipa" - uma obra que não teria sido a mesma sem a contribuição de toda a equipa, principalmente da co-directora Katia Lund, do argumentista Bráulio Mantovani, do director de fotografia César Charlone, do produtor Daniel Rezende e do director de arte Tulé Peake. Sem mencionar o elenco, formado por centenas de jovens actores, quase todos nos seus primeiros papéis no cinema. A pré-estreia mundial aconteceu em Maio de 2002, no Festival de Cannes, onde o filme foi considerado a grande descoberta do evento: "É uma sensação maravilhosa entrar numa sala de para assistir a um filme de que pouco se sabe e perceber que se está diante de uma obra-prima", escreveu Andrew Pulver, do jornal inglês The Guardian.

O principal personagem do filme Cidade de Deus não é uma pessoa. O verdadeiro protagonista é o lugar. Cidade de Deus é uma favela que surgiu nos anos 60 e que se tornou num dos lugares mais perigosos do Rio de Janeiro, no começo dos anos 80.
Para contar a história deste lugar, o filme narra a vida de diversos personagens, todos vistos sob o ponto de vista do narrador, Buscapé. Este, um menino pobre, negro, muito sensível e bastante amedrontado com a ideia de se tornar um bandido, mas também, suficientemente inteligente para se resignar com os trabalhos de escravo que eram impostos aos negros. Buscapé cresceu num ambiente bastante violento. Apesar de sentir que todas as probabilidades estavam contra ele, descobre que pode ver a vida com outros olhos, os de um artista. Acidentalmente, torna-se fotógrafo profissional, que foi a sua libertação. Buscapé não é o verdadeiro protagonista do filme, não é o único que faz a história acontecer, não é o único que determina os factos principais. Não é apenas a sua vida está ligada aos acontecimentos da história, mas, é através da sua perspectiva que entendemos a humanidade existente, num mundo aparentemente condenado a uma violência infinita.


A história do filme acontece em três tempos

Final dos anos 60
Buscapé é mais um menino de 11 anos da Cidade de Deus, um subúrbio do Rio de Janeiro. Um dia ele viu um fotógrafo a trabalhar e decidiu que era isso que queria fazer na sua vida. Dadinho é um garoto da mesma idade que se muda para a Cidade de Deus e sonha ser o bandido mais perigoso do Rio de Janeiro. Admira Cabeleira e a sua “turma” e vai ser Cabeleira que lhe dá a oportunidade de matar pela primeira vez. Dadinho cresce a matar e também cumpre o seu sonho, tornando-se um pequeno líder de um gang com grandes ambições. Torna-se traficante e recebe um novo apelido: Zé Pequeno.

Anos 70
Voltamos a encontrar os dois protagonistas da história. Buscapé estuda, trabalha ocasionalmente e vive na corda bamba que divide a malandragem da vida de otário. Dadinho já tem várias mortes nas costas e é um pequeno líder disposto a crescer muito. Percebe então que melhor que os assaltos, só o negócio do tráfico de cocaína e maconha. À sua maneira, resolve organizar esse negócio, que o faz crescer rapidamente.

Início dos anos 80
Buscapé, depois de tentar alguns assaltos frustrados, finalmente consegue arranjar uma câmara e torna-se fotógrafo, o seu sonho de infância. Dadinho também realizou o seu: aos 18 anos virou Zé Pequeno, o mais temido e respeitado traficante do Rio de Janeiro. É a lei em Cidade de Deus. Os seus amigos de infância são a sua corte. Meninos de 9 a 14 anos são o seu exército. Ninguém se atreve a contestá-lo, até Mané Galinha ver a namorada violentada e decidir vingar-se. A guerra rebenta na Cidade de Deus. Registar essa guerra em fotografias é a oportunidade da vida de Buscapé, que acabou de conseguir a sua primeira máquina profissional.

Mas o filme não é apenas a história destes dois personagens. O verdadeiro protagonista é o lugar: Cidade de Deus. São dezenas de histórias que se cruzam e se entrelaçam, revelando um universo. Histórias de amor, humor e luta. Histórias reais.

Cidade de Deus, retrato poderoso da vida nas favelas brasileiras, vai mais além e é uma autêntica crónica mundial do que é viver nas margens. “Eu acreditava”, conta Fernando Meirelles, que conhecia o apartheid social que existe no Brasil até ler o livro. “Percebi que nós, da classe média, não somos capazes de enxergar o que está na nossa cara. Não temos a dimensão do abismo que separa estes dois países: o Brasil e o Brasil. Decidi fazer um filme que fosse fiel ao partido do livro: filmado de dentro para fora da favela. Um filme sem actores profissionais, mas com garotos que vivem aquela realidade e que nos podem trazer a sensação do que é viver à margem. Mas Cidade de Deus não fala apenas de uma questão brasileira mas sim de uma questão global. Das sociedades que se desenvolvem na periferia do mundo civilizado.”

Courchevel

Courchevel é o nome de uma estação de esqui situada no departamento da Savoie, nos Alpes franceses, que faz parte de Les Trois Vallées, a maior área esquiável do mundo.


Courchevel refere-se às cidades de Courchevel 1300 (Le Praz), Courchevel 1550, Courchevel 1650 (Moriond) e Courchevel 1850, baptizadas pelas suas altitudes em metros. As cidades tornam-se mais exclusivas e elegantes à medida que se sobe a montanha, com preços de propriedades na cidade de 1850 significativamente mais elevados do que os de Le Praz, 1550 ou 1650. O vale de Courchevel ainda compreende a cidade de La Tania, construída para albergar os competidores dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1992, em Albertville. Le Praz acolheu a prova de salto de esqui naquele ano.

A cidade de 1550 atrai principalmente famílias, enquanto 1650 tem uma atmosfera mais jovem e festeira e 1850 é a destinação dos ricos e famosos deste mundo, com diversos hotéis 5 estrelas, chalés para multimilionários e dois restaurantes 2 estrelas Michelin, o Chabichou e o Bateu Ivre.

Couchevel está integrada no Parque Nacional Vanoise, que conta com mais de 1.400 quilómetros quadrados de área protegida, onde se encontram lagos, vales, uma flora e uma fauna únicas e espectaculares, assim como numerosos picos que chegam a alcançar mais de 3.000 metros de altura. Da sua fauna destacam-se as cabras alpinas, que povoam a zona. Os picos do Mont Pourri, com 3.800 metros acima do nível do mar, constituem o ponto mais alto na área.

30 de abril de 2010

Tony Hawk

Anthony Frank Hawk, mais conhecido por Tony Hawk, nasceu a 12 de Maio de 1968 em San Diego, na Califórnia e tinha 9 anos quando o irmão lhe ofereceu o skate “banana” de fibra que lhe mudou a vida.
Tony era o tipo de criança que punha a cabeça dos pais em água devido à sua hiperactividade. Tony sempre foi muito determinado. Quando tinha 6 anos a mãe levou-o a uma piscina olímpica. “Ele decidiu que tinha que atravessar a piscina sem respirar, o que o deixou muito frustrado quando viu que não conseguia,” recorda a sua mãe, Nancy. “Ele sempre foi muito exigente consigo próprio e criava grandes expectativas quando ia fazer qualquer coisa.” A certa altura tentou a sorte no baseball, como não tinha muito jeito, ficou tão desgostoso que se refugiou numa falésia perto de casa, obrigando o pai a “resgatá-lo” depois de algum tempo para o convencer.
As suas frustrações eram tão preocupantes que os seus pais foram à escola e pediram que lhe fizessem uma avaliação psicológica. Os testes comprovaram que Tony era “sobredotado” e os professores recomendaram que fosse colocado numa classe mais avançada. Estava descoberta a origem dos seus problemas: “os psicólogos disseram que ele tinha uma mente de 12 anos num corpo de 8,” lembra a sua mãe. “E a sua mente pedia-lhe para fazer coisas que o seu corpo não conseguia.”
Felizmente para o mundo do skate quando, ultrapassado o mistério dos seus problemas, o seu irmão Steve lhe ofereceu um skate. Tony começou timidamente a andar no seu skate “banana” até que rapidamente o seu corpo começou a acompanhar a mente. “Quando ele começou a evoluir no skate a sua personalidade mudou. Finalmente ele estava a fazer algo que realmente o satisfazia,” conta o irmão. “Ele tornou-se uma pessoa diferente, ficou mais calmo e começou a pensar também nas outras pessoas, tornando-se generoso. Ele não se preocupava tanto com o facto de perder, pois já nem sequer se preocupava quando perdia a jogar Pac Man, como acontecia anteriormente”.
A sua mãe concordava com uma gargalhada, “eu fiquei tão contente, pois enquanto ele gastava energias com o skate pelo menos não me massacrava a mim.”
Mas Tony continuava a lutar consigo próprio e sempre a tentar superar-se. Se não conseguisse fazer as suas melhores manobras num campeonato de skate, mesmo que ganhasse, ficava em silêncio e quando chegava a casa pegava no seu gato Zorro, levava-o para o quarto para falar com ele e depois dizia à mãe:” o Zorro diz que se eu não der o meu melhor, vai-me matar,” lamentava ele.
Nunca se descortinou a origem de tanta determinação. Pelo menos uma parte deve vir do seu pai, Frank, que lançava torpedos aos aviões durante a II Guerra Mundial. Mais do que uma fonte genética, Frank Hawk sempre apoiou e ajudou o filho a evoluir como skater, não como professor ou treinador, mas dando-lhe sempre todas as condições para ele treinar e evoluir naquela que era a sua paixão favorita. Frank correu a Califórnia de norte a sul para levar o filho Tony a campeonatos de skate, construiu inúmeras rampas ao longo dos anos e quando começou a ficar desgostoso com as (más) organizações dos campeonatos, fundou a California Amateur Skateboard League e a National Skateboard Association. As organizações de alto nível conseguidas pela NSA deram uma boa imagem ao skate e tornaram-no num desporto popular durante os anos 80. Frank morreu em 1995.
Aos 12 anos, Tony era patrocinado pela Dogtown Skateboards, aos 14 tornou-se profissional e aos 16 já era o melhor do mundo. Aos 17 anos, Hawk já tinha participado em 103 campeonatos profissionais, ganhando 73 e ficando 19 vezes em 2º lugar.

Infelizmente, ser campeão do mundo de skate não significava necessariamente independência financeira. O skate era notoriamente um desporto de altos e baixos de popularidade mas Tony sempre foi organizado e soube tirar proveito do seu sucesso. Finalista na Torrey Pines High School, em Del Mar, na Califórnia, ele comprou a sua primeira casa aos 17 anos. Dois anos mais tarde comprou outra casa: uma quinta com 1,5 hectares nos arredores de Fallbrook, onde construiu um gigantesco half-pipe. Entre a casa e a piscina com cascata construiu uma rampa mais pequena. Hawk viajava constantemente pelo mundo inteiro para participar em campeonatos e demonstrações. Ele ganhava dinheiro suficiente para pagar aos amigos viagens ao Hawaii, de forma a passarem férias todos juntos. Casou-se com Cindy Dunbar em Abril de 1990, indo viver para Fallbrook. Génio da electrónica, Hawk comprava constantemente novos computadores, sistemas de som, câmaras de vídeo e carros. Mas, em 1991 tudo isto acabava. O skate estava “fora de moda” e a indústria do desporto não resistiu, quando Tony se apercebeu já era tarde e o céu já tinha desabado sobre si.
O skate tinha “morrido”. Não foi uma morte lenta que desse tempo para Tony se precaver, foi como um soco no estômago que o deixou “ko”. Os seus rendimentos baixaram drasticamente e, subitamente, a sua mulher, que era manicure, tornou-se no sustento da família. A vida estava tão difícil que Tony até teve o apoio da Taco Bell que lhe ofereceu um abono de 5 dólares por dia.
Nos anos seguintes as coisas não melhoraram e ele vendeu a casa de Fallbrook e o carro Lexus. Em 1992 nascia o seu 1º filho, Riley. Entretanto renegociou o financiamento da sua 1ª casa e fundou uma empresa de skates, a Birdhouse Projects, com amigo (e ex-colega do Team Peralta) Per Welinder. Dois anos mais tarde, divorciou-se de Cindy. A Birdhouse não gerava receitas e o futuro de Tony era incerto.

Entretanto a indústria do skate dava mostras de estar a recuperar da crise, voltando novamente à mó de cima. O falcão (Hawk, em inglês) tornou-se Fénix e renasceu das cinzas. Em 1996 casou com Erin Lee e comprou uma casa nova com uma nova piscina e uma nova cascata. A Birdhouse tornou-se numa das maiores empresas da indústria do skate a nível mundial (com uma facturação anual a rondar os 20 milhões de dólares!) e Tony assinou chorudos contratos de publicidade com empresas como a Jeep, a Adio Shoes e a Sirius Satellite Radio. Em 1998 ele e a sua família criaram uma empresa de roupas de skate para crianças chamada, claro, Hawk Clothing, que foi adquirida pela Quiksilver no ano 2000 (actualmente à venda exclusivamente na cadeia de lojas Kohl). Em 1999 criou, juntamente com a Activision, o jogo Tony Hawk Pro Skater para a Playstation. Ele previa lucros razoáveis mas as cópias “voaram” das prateleiras e rapidamente o jogo tornou-se um bestseller. No ano seguinte foi lançado Tony Hawk Pro Skater 2 e foi directamente para o topo das vendas, tendo permanecido no 1º lugar durante mais de um mês. Entretanto foi lançado Tony Hawk’s Proving Ground que continuou a ter boa aceitação de parte do público e o negócio não dá sinais de estar a abrandar tendo já vendido mais de 2 milhões de cópias.
O sucesso de Tony virou-se para outras áreas e a sua autobiografia, “Hawk – Occupation: Skateboarder” tornou-se um bestseller e foi bastante elogiada pelo New York Times. Criou também o Tony Hawk’s Gigantic Skatepark Tour com a cadeia ESPN, que só é superada pelos X Games.

A 26 de Março de 1999, nasceu Spencer, o seu 2º filho, que também tem uma estranha atracão pelos skates pois já anda no seu mini skate às voltas pela cozinha. O 3º filho, Keegan, nasceu a 18 de Julho de 2001. Entretanto Tony divorciou-se de Erin, tornando-se num orgulhoso e presente pai. “Fico orgulhoso em poder ser skater e um pai responsável ao mesmo tempo”, diz Tony, “mas não me sinto tão “velho” como outros pais.”
Tony não se sente tão velho como outros pais, mas já era suficientemente velho para se “retirar” aos 31 anos. Mas “retirar” não significa que ia deixar de andar de skate, significa apenas deixar de entrar competições. Ele continua a andar de skate todos os dias, continua a aprender novas manobras e continua a participar em demonstrações pelo mundo inteiro. Ele foi recentemente considerado o melhor skater na vertente vert (half-pipe) pelos leitores da Transworld Skateboarding Magazine. Uma das coisas que fez com que Tony acabasse a carreira no final de 1999 foi o facto de ter realizado um 900º nos X Games. O 900º (2 piruetas e meia) era a última manobra que ainda não tinha completado e que fazia parte da lista de manobras que tinha definido como objectivo uma década antes, da qual também faziam parte o ollie 540, o kickflip 540 e o varial 720.

Em 2002, Tony lançou o Boom Boom Huckjam, um circuito que passava por 30 estádios de várias cidades com participação dos melhores atletas mundiais de skate, bmx e motocross freestyle na disciplina de rampas/saltos e com prémios no valor de 1 milhão de dólares. Enquanto os atletas “ripavam” nas rampas, as melhores bandas de punk e hip-hop actuavam ao vivo. O enorme sucesso das Huckjam Tour’s levou a cadeia de televisão Fox a incluir o espectáculo na programação do Super Bowl Sunday (final do campeonato de futebol americano). Em 2006 e 2007 o Huckjam Tour actuou exclusivamente nos parques da Six Flags (uma das maiores cadeias mundiais de parques de diversões).
E por falar em Six Flags, vão ser inauguradas duas montanhas russas Tony Hawk’s Big Spin nas cidades de San Antonio e St. Louis, além de projectos para execução de outras em diversas cidades nos próximos anos. Terão o skate e Tony Hawk como temática e serão inspiradas nos movimentos do skate.
Em Janeiro de 2006, Tony casou com Lhotse Merriam numa cerimónia realizada na ilha de Tavarua, em Fiji. Tony e Lhotse vivem em San Diego e em 2008 foram pais de Kadence.

Tony criou também a Tony Hawk Foundation, uma forma de retribuir algo a um desporto que tanto lhe deu. O principal objectivo é promover acções de caridade e financiar a criação de skateparks em bairros desfavorecidos, a Fundação já distribuiu mais de 2.7 milhões de dólares para instituições sem fins lucrativos construírem skateparks no país (Estados Unidos) inteiro. Actualmente, a fundação já participou na construção de 427 skateparks.

"Estou muito feliz com o rumo que a minha vida tomou, assim como o próprio desporto,” diz Tony. “Eu não me imaginaria a seguir outra carreira sem ser a de skater profissional.”

Woodstock

O Woodstock Music & Art Fair foi um festival de música organizado na quinta de 250 hectares, propriedade de Max Yasgur, na cidade rural de Bethel, no estado de Nova York. Foi realizado entre os dias 15 e 18 de Agosto de 1969. Originalmente, o festival deveria ocorrer na pequena cidade de Woodstock, também no estado de Nova Iorque, onde viviam músicos como Bob Dylan, mas a população não aceitou, o que levou o evento para a pequena Bethel, a uma hora e meia de distância.

O Festival de Woodstock surgiu dos esforços de Michael Lang, John P. Roberts, Joel Rosenman e Artie Kornfeld. Roberts e Rosenman, que entrariam com o dinheiro, colocaram um anúncio sob o nome de Challenge International, Ltd., no New York Times e no Wall Street Journal ("Jovens com capital ilimitado procuram oportunidades de investimento e propostas de negócio"). Lang e Kornfeld responderam ao anúncio e os quatro reuniram-se inicialmente para discutir a criação de um estúdio de gravação em Woodstock, mas a ideia evoluiu para um festival de música e artes ao ar livre.
 
Trinta e dois dos mais conhecidos músicos da época (entre os quais Janis Joplin, Jimi Hendrix, The Who e Joe Cocker) apresentaram-se a meio milhão de espectadores durante um chuvoso fim-de-semana. Apesar de posteriores tentativas de imitação do festival, o evento original provou ser único e lendário, reconhecido como um dos maiores momentos na história da música.

Mesmo considerado um investimento arriscado, o projecto foi montado tendo em vista o retorno financeiro. Os bilhetes começaram a ser vendidos em lojas de discos na área metropolitana de Nova York e via correio através de uma caixa postal. Custavam 18 dólares se fossem comprados antecipadamente e 24 dólares se fossem comprados no próprio dia. Foram vendidos antecipadamente 186,000 bilhetes e os organizadores estimaram que se chegasse às 200,000 pessoas com as vendas no dia do festival, mas não foi isso que aconteceu. Mais de 500,000 pessoas marcaram presença, destruindo cercas e transformando o festival num evento gratuito.

Esta afluência repentina provocou congestionamentos imensos, bloqueando a Via Expressa do Estado de Nova York e eventualmente transformando Bethel numa "área de calamidade pública". As instalações do festival não estavam equipadas para providenciar saneamento ou primeiros-socorros para tal multidão e centenas de pessoas viram-se obrigadas a lutar contra o mau tempo, o racionamento de comida e condições mínimas de higiene. Com todas as estradas bloqueadas, os organizadores tiveram que alugar helicópteros ao exército para trazer os músicos até ao local.

 
Embora o festival tenha sido reconhecidamente pacífico, relativamente ao número de pessoas e condições existentes, houve duas fatalidades registadas: a primeira resultado de uma provável overdose de heroína e a outra após um atropelamento com um tractor a um jovem que dormia no campo. Houve também dois partos registados (um dentro de um carro preso no trânsito e outro num helicóptero) e quatro abortos.

O festival exemplificou a era hippie e a contracultura do final da década de 60 e início de 70, que incluía o consumo de drogas, os protestos anti-guerra e anti-capitalismo, o conceito de amor livre, o movimento de libertação das mulheres, a vida em comunidde e muito mais. Os Estados Unidos estavam divididos. De um lado estava um grupo de norte-americanos que apoiava o país na guerra do Vietnam. Do outro lado estava o grupo de norte-americanos conhecidos como hippies: um termo que se tornou conhecido por volta de 1967.

Ainda assim, em sintonia com as esperanças idealísticas dos anos 60, Woodstock satisfez a maioria das pessoas que compareceram. Mesmo contando com uma qualidade musical excepcional, o destaque do festival foi mesmo para o retrato comportamental exibido pela harmonia social e atitude do seu imenso público. 

Curiosidades:
  • A banda Grateful Dead tocou durante a chuva. Alguns membros da banda levaram choques durante a sua actuação e o baixista Phil Lesh ouviu o rádio de transmissão de um helicóptero através do amplificador do seu baixo enquanto tocava.
  • A actuação de Jimi Hendrix estava agendada para domingo (a encerrar o festival), mas, devido às ocorrências inesperadas, acabou por tocar na manhã de segunda-feira, quando restavam apenas 35.000 pessoas.
  • Apesar de o festival ter a presença de uma multidão de 500.000 pessoas, apenas 200 pessoas foram presas no local, principalmente por ofensas.
  • Os Doors também foram convidados para o festival mas recusaram porque Jim Morrison sabia que a sua voz soaria mal por estar ao ar livre (habitualmente os Doors tocavam em recintos fechados com menos público). Há também a ideia de que Morrison estava com medo que alguém do público lhe desse um tiro e o matasse quando subisse ao palco. No entanto, o baterista John Densmore compareceu no festival sendo visto ao lado do palco durante a actuação de Joe Cocker, quando este cantava o hino "Let's Go Get Stoned".
  • Os promotores entraram em contacto com John Lennon, a pedir para os The Beatles tocarem no festival. Lennon disse que os Beatles não tocariam no festival a não ser que a Plastic Ono Band, da Yoko Ono, também pudesse tocar. Os promotores o recusaram. 

27 de abril de 2010

Jello Biafra

Eric Reed Boucher (Boulder, 17 de junho de 1958), mais conhecido pelo nome artístico Jello Biafra, é um cantor e compositor de punk e activista político americano, ex-vocalista da banda Dead Kennedys. Jello (ou melhor, Jell-O) é uma marca de sobremesa com gelatina com pouquíssimos nutrientes, comum nos Estados Unidos. Biafra é um país que se tornou independente da Nigéria em 1967, mas que acabou em 1970 graças à repressão nigeriana originando uma das maiores crises de fome da história de África. Assim, a ironia de Jello Biafra já vinha directamente no seu nome artístico: era a mistura de uma merda sem nutrientes com uma das maiores crises de fome...

Principal compositor e vocalista dos DeadKennedys, destacou-se como personalidade política ao idealizar a produtora alternativa "Alternative Tentacles", responsável pelo lançamento do single "California Über Alles" em 1979. No mesmo ano, lançou a sua candidatura a Mayor de São Francisco, com propostas como forçar empresários a usar roupas de palhaço dentro do perímetro urbano ou banir o uso de veículos dentro da cidade, Biafra ganhou 3,5% dos votos, ficando em quarto lugar entre dez candidatos. O seu slogan de campanha era "There is always room for Jello", traduzindo, "Há sempre um lugar para Jello".
Para não cometer injustiças com Jello Biafra, é preciso dizer que ele sempre foi um activista e esteve presente nos protestos antiglobalização (esteve em Seattle em 1999) e contra a ALCA (no Quebec, em 2001), proferiu palestras sobre cyberactivismo e criticou intensamente o "Parents Music Resource Center" (PMRC), um dos mais poderosos órgãos de censura dos Estados Unidos e considerado o principal responsável pelo fim dos Dead Kennedys.
O PMRC é um comité formado em 1984-1985 por várias mulheres de congressistas (inclusivamente Tipper Gore, a mulher do ex-vice de Bill Clinton, Al Gore) com o objectivo de alertar os pais para a música que os filhos ouviam. O PMRC foi um dos instrumentos mais duros dos neoconservadores sobre a indústria musical, promovendo uma política de censura ao rock, música que, segundo essas distintas senhoras, encorajava e glorificava a violência, o consumo de drogas, o suicídio e a actividade criminosa, entre outras "atrocidades".
Como é obvio, o PMRC possuía uma forma de pressão muito directa sobre o Senado americano (afinal,as suas fundadoras partilhavam a cama com muitos senadores) e conseguiu com que a indústria fonográfica, a RIAA ("Records Industry Association of America"), lançasse uma etiqueta sobre os álbuns que o PMRC considerasse "inadequados". Subserviente às pressões políticas, a indústria musical simplesmente acatou as demandas do PMRC e as editoras independentes é que sentiram o maior golpe, tendo de pagar pesadas multas legais.
O caso dos Dead Kennedys foi o mais emblemático. A polícia invadiu a casa dos membros do grupo (inclusive do próprio Biafra) e levou-os a julgamento graças à capa do álbum "Frankenchrist" (1985). Sem recursos para conseguir arcar com os gastos do processo, os Dead Kennedys separam-se em Dezembro de 1986. Desde então, Biafra vem atacando o PMRC e a indústria musical norte-americana sem dó, inclusivamente estando presente em talk-shows e programas de rádio para criticar a posição do comité.
Depois do fim dos Dead Kennedys, Biafra foi alvo de um desgastante e embaraçoso processo movido pelos seus ex-colegas de banda, East Bay Ray, Klaus Flouride e D.H. Peligro, que o forçaram a diminuir o ritmo da sua produção musical. O caso, quase tão surreal como o confisco dos posters de Frankenchrist, em 1986, abre precedentes para que qualquer artista processe uma editora quando achar que os seus discos velhos deixaram de ser divulgados. É basicamente nisso que se sustenta a argumentação dos três músicos que, ainda por cima, ressuscitaram os Dead Kennedys para realizar constrangedoras tournées.
“Estou profundamente enojado com os ex-membros dos DK. Não consigo acreditar que eles tenham virado as costas e urinado em cima de tudo aquilo em que a banda sempre se apoiou, revelando-se pessoas tão podres e gananciosas. Eles processaram-me por não agir como uma editora de rock corporativo e o que desencadeou tudo isto foi a minha recusa em deixar que ‘Holiday in Cambodia’ fosse usada num anúncio da Levi’s. Para mim (ter feito isso), seria a maior facada nas costas das pessoas que sempre apoiaram a nossa música e o conceito que está por trás dela durante todos estes anos. Tem sido muito difícil preservar o meu orgulho pela música e separar isso do facto de eles se terem tornado traidores imundos”, declarou Biafra ao fanzine Juice Mag, em 2001.
Apesar do desgaste com a questão dos tribunais envolvendo os antigos ex-membros do Dead Kennedys, Jello tem estado envolvido mais do que nunca na realização de palestras pela América a favor das liberdades civis. Biafra também esteve na lista dos presidenciáveis do Partido Verde nas últimas eleições, tendo o jornalista Mummia Abu-Jammal como possível vice-presidente, mesmo estando este no corredor da morte.
No ano passado, Jello fez algumas participações em espectáculos de Ice-T/Body Count, para cantar “Cop Killer”, e Henry Rollins – na tournée de beneficência ao West Memphis Three (três jovens condenados à morte sob alegações absurdas) -, cantando o clássico do Black Flag “Jealous Again”. Biafra foi convidado ainda por Fat Mike, dos NOFX, para participar na Punk Voter, entidade que visa incentivar os jovens americanos a votar. O mesmo Fat Mike, que é dono do selo Fat Wreck, lançou a colectânea Rock Against Bush, que incluia várias bandas e artistas que discordavam da administração de George W. Bush. Biafra cedeu a canção “That’s Progress”, gravada com o D.O.A. em 1989.
Em 2003, Jello participou na música “Allah Save Queens”, da banda Carpet Bombers for Peace, imitando a voz de Bush filho. A faixa aparece na colectânea de beneficência Salt in the Wound. Envolvido na política até ao pescoço e a preparar o lançamento de um album com o Melvins, Biafra descarta qualquer possibilidade de regresso dos Dead Kennedys: “Eles (Ray, Flouride e Peligro) levaram-me a tribunal durante quase seis anos e recusaram qualquer tentativa de reconciliação. Acho que dificilmente estarei decepcionando os fãs ao não participar nesse massacre nostálgico”.
Jello actualmente vive perto de São Francisco numa casa sem muitos luxos. Tem gravadores, muito papel e uma enorme biblioteca carregada de livros de política, o seu assunto favorito. Até porque, para ele, política e música não são lá muito diferentes. Desde que chegou à fama com a sua antiga banda, os Dead Kennedys, as suas letras, a fúria e uma inconfundível ironia estão ao serviço da resistência ao silencioso totalitarismo que, segundo ele, faz dos EUA o triunfo do fascismo.